
o skate e a sua beleza
Eu não sei bem o que é essa questão de ser ou não ser do skate, o tal ser “verdadeiro”. Eu sempre gostei de pensar o skate como algo que me faz bem e que me faz sentir feliz quando o trato com carinho. A ideia de fazer bem e se sentir feliz podem parecer coisas um pouco abstratas e que podem suscitar inúmeras possibilidades. E são, é para serem mesmo.
O skate talvez me pareça como uma poesia. Ela pode acontecer em meio a um suspiro repentino ou a muito esforço para conseguir externar aquilo que se quer dizer. A sua ordenação, em meio a superfície, não é exatamente linear e se dá conforme a criação do seu autor encontrar formas dela existir e se expressar.
Quando eu vejo o skate (e a sua poesia) não fico pensando muito se ele está no meio da rua ou numa pista, se ele está parado na calçada em meio a uma roda de conversa ou descendo uma ladeira em bando, se ele está em uma pista de street ou em uma pista de vert, se ele está em um game of s.k.a.t.e. na praça de um bairro ou em um campeonato mundial. Eu gosto de pensar que ali há uma poesia que está procurando um meio de dizer algo, encontrando o seu lugar em meio a superfície em que ela está.
Eu acho que é preciso um esforço para ver a poesia natural do skate, e não considerar tanto as nossas inclinações e gostos pessoais. De sentir um negócio maior que brota e nos faz sentir algum tipo de empolgação e paixão quando o vemos. Aliás, um esforço semelhante é necessário para quando vemos uma partida de futebol, e não a levar tanto em consideração como um espetáculo televisionado ou o resultado da partida, e até mesmo o pessoal de terno e gravata por trás dos investimentos.
Sinto algo mágico quando vejo o vídeo Manhattan Days com o Pontus Alv e a sua turma andando pelas ruas e imaginando um ambiente urbano tão bonito como o seu filme faz ele ser, assim como sinto algo mágico quando vejo a Pâmela Rosa realizando tentativas para concretizar uma linha e colocar nos obstáculos manobras a sua maneira, ainda mais se ela poder vibrar com orgulho e paixão junto a Rayssa Leal a conquista do primeiro e segundo lugar do pódio, respectivamente, como foi na edição do Street League em São Paulo. Tudo isso é skate.
O que quero dizer com isso é que, o skate não se trata propriamente sobre uma competição e premiações ou sobre uma estratégia de marketing bem executada para alavancar a venda de um modelo de tênis de uma marca de calçados em collab com uma marca de skate. O skate é mais que essas coisas, elas são apenas interferências na paisagem.
Ver o skate nas olimpíadas é um negócio que me parece que será fascinante. Eu espero que a gente possa enxergar os atletas que para ela serão convocados com o mesmo fascínio ao que encaramos as nossas preferências pessoais no skate, ou ao menos de modo semelhante. Claro, esse esperar de alguma forma depende de circunstâncias externas e fora de nosso controle. Mas que ao menos as nossas ideias e expectativas possam tratar o skate de forma boa e com carinho, seja onde for.
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