
a cidade e suas transformações
A ideia de urbe como forma de um projeto civilizacional é um desafio para o convívio e as relações humanas que nos coloca em um estado de reflexão constante sobre a existência e a convivência coletiva e sobre o compartilhamento de seus espaços entre uma pluralidade de pessoas e das possibilidades de relações através deles. Eu penso que as cidades são uma espécie de ente vivo que sofrem influências pelo tipo de convívio e relações que travamos com as pessoas que nelas habitam e também com a própria cidade. Uma rua, uma casa, uma praça, um comércio são mais do que um punhado de elementos que ocupam um espaço e servem para delimitar um bairro e cidade. Para além do espaço geográfico e suas fronteiras, elas são formas de criar um sentido para aquele lugar.
Na construção de convívio e relacionamento entre os homens e a cidade há grandes estruturas, como sua concepção urbanística, seus projetos arquitetônicos e paisagísticos e as ideias por traz de seus espaços públicos e privados com suas possibilidades de uso, que são capazes de influenciar o modo como encaramos e levamos nossas vidas. E nesse sentido, São Paulo parece um lugar que está sob fortes lógicas que empreendem qualquer sorte de transformação urbanística e paisagística, feitas aqui ou acolá, que acabam por a colocar sob uma intensa luz turva que deixa um aspecto de baixa definição e de um arranjo caótico.
Dentro desse cenário de cidade e urbanidade, o skate traz à ideia de uma expansão de perspectiva do desígnio de suas vias e itinerários que amplia as possibilidades dos espaços e seus mobiliários e proporciona uma outra forma de se estar em contato com a cidade, e é na miríade urbanidade e a cidade de São Paulo que o livro Vale conta sobre um lugar que skatistas “encontraram” por acaso e fizeram com que um novo projeto urbano paisagístico localizado bem no centro que foi pensado para ser um espaço de convívio e de interação social que ultrapassasse as burocracias e as formalidades cotidianas de uma capital, amplificasse suas possibilidades e se tornasse um dos picos de skate mais conhecidos.

(Páginas dos livros Vale TXT e Vale IMG)
O Vale do Anhangabaú, que estava sendo completamente remodelado para se tornar uma praça ampla de características pouco convencionais, viu seu uso se tornar um ‘playground skatável’ ao proporcionar que se explorasse criatividade e técnica de uma maneira ímpar. Pois suas arquibancadas que eram de um mármore bruto e com passagens angulosas e estreitas entre seus níveis, e sua calçada tortuosa composta predominantemente por pedra portuguesa e com trechos estreitos de um outro material que possibilitava as rodas do skate, de fato, rodarem passariam a acolher skatistas de todos cantos da cidade. Essa possibilidade de uso era algo que seus arquitetos não devem ter imaginado. Mas algo que eles pensaram é que, por ali ser um ponto limite entre o Centro Velho e o Centro Novo e que até então era cortado por uma ampla avenida, pudesse ser um local que propiciasse maior convivência na região central da cidade e expandisse as conexões. E assim foi ao ver novas crews se formarem por conta do elo que o convívio cotidiano proporcionava, skatistas de todos os cantos da cidade ou mesmo de outros estados e países andarem por lá, marcas nascerem entre manobras e conversas em suas arquibancadas, e vídeos e revistas de skate registrar e mostrar aquele lugar para o mundo.
Quem conhece o centro de São Paulo sabe que existe um certo clima difícil de se adaptar, pois há uma fantasmagoria em meio a sua paisagem de arquitetura, construções, ruas e passagens que se codifica em um silêncio incômodo entre um passado esquecido e um futuro de horizontes incertos, e em seu ar decadente e frívolo em que a presença humana é muito mais acessória. E embora aquele lugar se tornou para o skate um local que inspirava veneração o clima da região central não consegue ser facilmente transformado por pontuais projetos urbanos paisagísticos. Mas nas brechas possíveis, o skate acabou por fazer com que fosse mais habitável e com vida pulsante.

(Capa do livro Vale IMG)
O vínculo entre o skate e o “Vale” atravessa mais de três décadas em que muita história aconteceu por conta desse relacionamento que o transformou em um lugar especial. Isso fez com que esses seus frequentadores criassem dentro de si um espaço como se fosse uma casa daquele lugar, em que a levavam consigo onde iam e para lá gostavam de retornar. E que ninguém, além deles próprios, parecia saber que a construção de um novo projeto para aquela sua ‘morada’ sem nenhuma troca de palavras com os seus ‘moradores’ de longa data poderia trazer um sentimento de rompimento profundo com a edificação invisível que aquele lugar representava, e que essa transformação causaria uma sensação de queda brusca do espaço imaterial que se formou dentro deles a partir daquele lugar.
Imagine que um dia você fosse acordado, de repente, com o som de uma retroescavadeira na frente de sua casa pronta para pôr abaixo parte das construções da rua de sua casa para se tornar uns edifícios com um número sem fim de andares que prometem trazer “um novo modelo melhor de se viver” para aquele lugar. Só que ninguém consultou seus moradores sobre esse tal novo projeto. Então, com a intenção de que não levem embora assim uma parte de você e de sua história, você chama seus vizinhos para tentar impedir que isso aconteça. Pois tem que ser possível fazer algo.
É em uma situação parecida como essa de transformação brusca e repentina, só que entre o Vale do Anhangabaú e o skate, que os livros Vale TXT e Vale IMG relatam e mostram uma misto de nostalgia e de sentimentos confusos da passagem entre o antigo e o novo, de memórias e idealizações, de como foi e como será, de um possível diálogo entre o poder público e as demais esferas da sociedade. Além disso, são também uma forma de jogar uma luz e de relatar parte da transformação da cidade, de abordar as dificuldades da impermanência e das ressignificações que podem acontecer.

(Livros Vale TXT e Vale IMG)
Idealizados por Murilo Romão e lançados pelo projeto que ele desenvolve com outros skatistas, o Flanantes, o Vale TXT é composto por depoimentos e textos de diversos skatistas e também de Rosa Kliass, uma das arquitetas responsáveis pelo projeto que perdurou por quase 30 anos e fez do skate seu principal símbolo, ou vice e versa, e Vale IMG reúne uma série de fotografias de skate e do local realizadas por fotógrafos do skate.
Para adquirir um exemplar dos livros basta entrar em contato com o pessoal do Flanantes através do Instagram.
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