top of page

 sobre aquilo que fica em um shape usado 

Um shape usado pode muitas vezes parecer um simples objeto desgastado e deteriorado por conta do impacto que sofreu ao longo do tempo e da série de movimentos que foram feitas sobre o skate. Uma outra formar de olhar para ele e que pode trazer mais significado e sentido ao seu fim natural, é pensar que o resultado de uma série de eventos sobre o skate levaram à sua transformação e a uma existência única por meio da interação com uma pessoa. O skate e o skatista são uma coisa só em que a identidade e a personalidade do skatista ficam marcada no skate por meio do jeito de andar, e o shape é a peça que se torna o narrador privilegiado dessa relação.

Os arranhões e os desgastes ao longo de toda a sua extensão são resultantes da forma de pisar, das manobras mais realizadas e do estilo de andar. Essas marcas que ficam no shape são como indícios do skatista que pisou sobre ele, remou, se equilibrou e fez manobras em superfícies e obstáculos. As mesmas marcas são também como uma espécie de descrição do skatista, pois além de revelar a existência de uma pessoa, uma identidade, mostram uma personalidade por trás dela. Por meio da repetição de arranhões e batidas que ficam impressas se forma padrões que tornam possível notar os gostos, as preferências e os trejeitos do skatista. É a personalidade do skatista que se une ao skate, e realiza uma criação espontânea e quase que inconsciente no shape.

A personalidade humana não tem propriamente uma tendência a ser e a se tornar inerte, podendo sofrer desde pequenas a grandes transformações em curto ou longo espaços de tempo. Em algum grau, ela é resultado dos fenômenos aos quais estamos expostos e dos quais participamos mais diretamente. E assim como na qualidade de pessoa a personalidade é mutável, na qualidade de skatista ela também é. No processo de transformações da personalidade o shape pode servir como um instrumento que registra fatos e reflete o skatista. O seu modo de ser, a sua concepção de skate, as habilidades adquiridas ou resgatadas e as mutações relacionadas a todas essas coisas.

Com um olhar mais atento e cuidadoso é possível até identificar lugares por onde se andou e manobrou. Por exemplo, o padrão de cores de uma superfície por onde se executou uma manobra de slide ou de wallride podem ficar gravadas no shape de maneira fragmentada.

Os acontecimentos relacionados tanto a própria pessoa como aos lugares por onde se passou também são visíveis em outras peças, mas parece que por conta das próprias características físicas do skate e da sua prática o shape acaba por sofrer uma exposição maior e mais dinâmica.

Cada shape usado é único onde acontecimentos relacionados ao skatista e sobre ele se tornam uma memória física guardada em uma expressão singular e linguagem codificada de suas marcas que é de natural compreensão pelo criador e simples de ser entendida por outros skatistas.

Temos que estar atento a fenomenologia do shape usado.

© todos os direitos reservados

bottom of page