
o skate de competição revisitado
Quando comecei a andar e ter contato com o universo do skate não sei ao certo se surgiu ou se já existia um programa sobre skate que passava no canal rede 21 aos domingos por volta do horário do almoço. A rede 21 já foi um canal com uma programação bem mais extensa e com conteúdo para o público jovem, mas isso é uma outra história. Isso foi bem no final da década de 90 e início dos anos 2000, infelizmente não me recordo do nome do programa. Mas creio que ali foi o meu primeiro contato com algum tipo de frequência com mídias do skate, era só ligar o televisor aos domingos naquele horário e pronto, ter conteúdo sobre skate por cerca de 1 hora.
Nesse programa sempre apareciam andando pessoas como Carlos de Andrade “Piolho”, Fabrizio Santos “Cara de Sapo”, Fábio Sleiman, Sandro Sobral e Rodil “Ferrugem” Jr., entre outros personagens do skate. Desses nomes, um que nunca sumiu de forma pejorativa do imaginário popular do skate nacional a maior parte do tempo foi o de Rodil Ferrugem. Anos se passaram e em uma roda ou outra de conversa durante a sessão o nome dele é evocado como se encarnasse uma visão de skate a ser completamente evitada, uma espécie de pária a ser surrado como um judas a ser malhado no meio da rua. Melhor talvez fosse ignorar e não falar sobre, esperando com isso provocar um esquecimento e queda completa do personagem e seu significado.
Mas o fato é que Rodil Rubens Araújo Júnior, mais conhecido como Rodil “Ferrugem” ou somente Ferrugem, fez e faz parte da história e da cena do skate nacional e ao seu modo manteve-se andando e criou um estilo e mentalidade voltada para as competições. E ao que se sabe, se saia muito bem nesse sentido.
Me parece que é importante e fundamental dizer que o fato de uma pessoa ter sua visão e energia voltadas para competições de skate não a desqualifica e a desmoraliza para andar e falar sobre o skate, fosse antigamente ou seja hoje em dia. O skate por aqui tende a ser carente em seu pensamento e formação de opinião, com uma parcela de seus praticantes surrando duas ou três ideias mal ajustadas que cerceiam o pensamento no skate, reduzindo suas possibilidades de discussão e de desenvolvimento.
Alguns podem estar pensando e querendo acrescentar para justificar o ponto de vista de aversão a ele a tal da sua “personalidade”, que ao que se conta tinha momentos difíceis de digerir. Eu não estive em eventos nessa época e não vi por conta própria para dizer se houve ou não exageros dele ou até mesmo de alguém para com ele para que a partir daí se criasse uma hostilidade constante. Então eu quero dizer que está tudo certo se houve ou não? Não é esse o ponto em questão aqui, quero dizer que rusgas pessoais não deveriam anular e inviabilizar a construção de significados maiores. Além do mais, já vi momentos constrangedores no meio do skate, alguns na história recente, que não são discutidos ou levados com a seriedade devida, o que acaba por servir somente a interesses particulares.
O que me fez escrever esse texto é a possibilidade de abrir uma outra janela para pensar sobre essa época em meio as competições e os desdobramentos da presença de um personagem como Rodil Ferrugem. O skate nacional entre os anos 90 e anos 2000 tinha um circuito de competições e tours em alta, isso ao mesmo tempo que ajudava o mercado movido por marcas e patrocínios estar aquecido permitia aos skatistas andar e estar em contato com outros skatistas criando intercâmbio de relações. E de um modo geral, me parece que os skatistas enxergavam nessa dinâmica mais uma maneira de fortalecer vínculos da prática entre os membros da sua comunidade deixando um pouco em segundo plano o fator competição e com quase nenhuma fração de rivalidade direta. E em meio a essa linha de pensamento deveria ser esquisito para quem andava nesses mesmos eventos ter ao seu lado um garoto que chegava na competição, acertava basicamente toda a sua linha, ao que parece falava pouco, subia no pódio e acabou. Pois Rodil Ferrugem se fez através de um estilo de vida e de comportamento em que estar nas competições e levar o pódio era seu objetivo, adotando uma mentalidade de treino e preparo que poderia soar esquisito para uma boa parcela. Creio que essa conjunção de fatores criou obstáculos que pelos próprios meios e maneiras que o skate vinha se formatando por aqui possivelmente o afastava dos demais garotos da comunidade do skate e vice-versa, com algumas doses de hostilidade entre si, afinal eram apenas garotos.
O fato é que estamos em 2024, o skate já esteve presente em uma edição das Olimpíadas, está indo para a sua segunda neste ano e com a presença em ao menos mais uma edição garantida. E com isso, o pensamento e comportamento sobre aspectos que Rodil Ferrugem de algum modo já dava sinais de sua existência e despertava dentro do universo do skate como disciplina, treino, preparo e apoio técnico estão em alta. E não há culpa nenhuma nisso necessariamente. Cada vez mais vai se naturalizando essas chaves de pensamento e de comportamento que possibilitam a aqueles que se interessam no meio do skate a trilhar caminhos que eleve seu desempenho em competições, de modo que se sinta também como parte de um todo.
A vertente competição e o personagem Rodil Ferrugem têm uma conjunção particular que possibilita voltar o olhar para interpretar melhor esse tipo de skate e a compreender os caminhos atuais o que com o passar dos anos e os eventos competitivos mais recentes penso ser correto classificar como uma prática de alto rendimento. E assim seguirmos existindo em pluralidade e unidade.
Jogar uma outra luz sobre esse personagem por meio de um tema que foi sendo maltratado ao longo do tempo na história do skate nacional quer me fazer acreditar que seja um meio de o skate poder contar mais histórias interessantes e ter um olhar mais tranquilo e honesto para ser capaz de revisitar e de criar a sua própria história.
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